25 de junho de 2012

O nascimento, do ponto de vista do sujeito

Gramática nunca foi o meu forte. Mas o conceito de objeto e sujeito foi fácil de entender. O sujeito é quem faz, quem age; o objeto é passivo, quem recebe a ação. Vamos levar esse aprendizado para a sala de parto. Quem nasce? O bebê, claro! E, pelo menos num parto natural, quem executa a ação do nascimento – quem se desliza, gira, emerge – é o bebê. E as exclamações no momento emocionante em que sai o corpinho deixam isso claro: “ela/ele nasceu!”
Infelizmente, nessa sociedade imediatista e comodificada, isso foi se perdendo de vista. Sobretudo com a assistência ao parto cada vez mais padronizada e tecnocêntrica, o bebê é tratado como um objeto, o produto de um evento regido pela equipe médica. É o médico quem sabe (após dezenas de ultras, cardiotocos e exames) quando seu produto, quer dizer, o bebê, está pronto: “Mãezinha, o bebê já tá com 37 semanas; ele tá prontinho para nascer! Vamos marcar a cesárea”. Ou, para quem tem pacientes um pouco mais informadas: “Olha, sua placenta já está Grau 3, sinal de que está madura. Vamos retirar esse bebê antes que alguma coisa aconteça?” Em ambos os casos, fica claro que o bebê não passa de um objeto – um objeto muito precioso e delicado, sem dúvida – mas um mero objeto de cena nessa produção chamada “Nascimento”. Mas, como nos mostra a gramática, esse entendimento do nascimento ignora um fato inegável: o bebê é o sujeito e não o objeto. E é por isso que eu quis fazer esse exercício de tentar descrever o nascimento do ponto de vista dele.
Num parto fisiológico, acompanhado por uma equipe que interfere o mínimo possível, a mulher entra em trabalho de parto após receber um sinal enviado provavelmente pelo pulmão e pelas glândulas renais do bebê. Ou seja, o primeiro sinal captado pelo cérebro da mãe, desencadeando a liberação dos hormônios do parto, vem do bebê. É ele quem diz que está pronto para nascer (podendo estar com 38, 40, 42 semanas ou até mais). Essa primeira parte do trabalho de parto – chamada de pródromos ou fase latente – é lenta, e o bebê não participa ativamente. Se for muito sensível, sente como um abraço as contrações ainda fracas e, por hora, espaçadas do útero, acolchoadas pela água que o cerca. Com sorte, ele está de cabeça virada para baixo, com as costas viradas para o umbigo da mãe, na posição mais favorável para iniciar sua descida sinuosa pelo canal de parto. Como um atleta prestes a dar um mergulho, ele aperta o queixo em direção ao peito. Na fase ativa, em que o útero de sua mãe trabalha com toda a força para afinar e abrir o colo (saída do útero), é capaz de o bebê sentir os abraços com mais força e, quem sabe, começar a contribuir para que a abertura aumente. Com sua cabeça, ele faz pressão no colo, ajudando-o a se abrir, e isso acontece com mais eficácia ainda após o rompimento (natural) da bolsa. Com o colo totalmente aberto, pode ser que ele faça uma pausa antes de prosseguir. Como se tivesse aberto o portal, mas, na hora, bate um medo de passar para o outro lado: o que será que encontrará lá? Um mundo frio, hostil e estranho ou um lugar quente e seguro, não muito diferente de seu antigo lar, só que muito mais interessante?
Passando para a segunda fase do trabalho de parto – a expulsão – o bebê desce ainda mais, e faz movimentos para facilitar a passagem pelo canal de parto, que tem como sustentação os ossos da bacia (em formato oval) e os músculos e tecidos macios do períneo (assoalho pélvico). Se sua mãe estiver sendo bem atendida, numa posição confortável, com liberdade de movimento e sem receber ordens de fazer força, a ação do útero, a gravidade e o saber instintivo mãe-e-bebê contribuirão para que ele vá descendo e girando – lentamente, com possíveis sobes e desces – esticando com cuidado o períneo elástico da mãe. A pressão do canal de parto, quente e seguro, mas talvez um tanto desconfortável para o pequenino, ajuda a apertar seus pulmões, para que o líquido seja expelido, o que facilitará a sua primeira respiração. No mais, nessa decida pelos tecidos da mãe, o bebê ingere bactérias benéficas, que logo colonizarão seu intestino, contribuindo (e muito) para uma flora intestinal saudável e eficiente. É um percurso difícil e desafiador, mas ele consegue e, enfim, emerge. Mãos quentes o recepcionam. Ele está acordado e alerta, apesar do medo. Na próxima contração, sai o seu corpo, girando, e ele é colocado no ventre da mãe. É um susto, uma emoção e tanto, mas ele reconhece o cheiro, o calor, a voz. Recebe ainda o sangue oxigenado da placenta, mas já se acostuma, aos poucos, como o ar e o novo meio que o cerca. Ele conseguiu: embarcou numa viagem, trabalhou, persistiu. Pode ser que tenha passado, literalmente, por alguns apertos  (hehe) , mas foi vitorioso. E, no futuro, ele poderá dizer, com orgulho, que ele, de fato, nasceu.
Minutos após o parto, o bebê cansado é acolhido pelos seus pais

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