2 de setembro de 2012

Seu filho é uma boa pessoa


Dr Carlos Gonzáles



" Muitos especialistas, provavelmente bem-intencionados, falam-nos dos problemas comportamentais das crianças. Existem problemas de alimentação, problemas de sono, ciúmes, violência, egoísmo… Toda a gente nos fala dos problemas dos nossos filhos, como detectá-Ios, como preveni-Ios ou como solucioná-Ios, de como nos «manipulam» e a razão por que é preciso estabelecer limites. Ninguém nos lembra que os nossos filhos são boas pessoas.
E são-no. Têm forçosamente de o ser. Nenhuma espécie animal poderia sobreviver se os seus indivíduos não nascessem com a capacidade de adquirir o comportamento normal dos adultos e com a tendência para o fazer. Não é necessário muito esforço para ensinar um leão a comer carne e uma andorinha a voar para África.
O que é difícil, o que requer métodos de educação absolutamente aberrantes, seria conseguir um leão vegetariano e umaandorinha que não emigrasse. A imensa maioria dos recém-nascidos, quando criados adequadamente (isto é, com amor, respeito e contacto físico), serão crianças normais e, mais tarde, adultos
normais. O ser humano é um animal social e, por isso, a capacidade para amar e ser amado, respeitar e ser respeitado, ajudar os outros e obter ajuda dos outros membros do grupo, compreender e respeitar normas sociais (em resumo, ser uma boa pessoa) são aspectos normais da nossa personalidade. A educação esmerada, a religião ou a lei podem dar-nos outras coisas; mas não são imprescindíveis para se conseguir ser uma boa pessoa.
Os nossos antepassados, sem dúvida, já eram boas pessoas quando viviam em grutas, do mesmo modo que as galinhas são «boas galinhas» sem necessidade de escola ou de polícia.

O seu filho é desinteressado

Lama, de três meses, chora desconsolada. Mamou, tem a fralda limpa, não tem frio, não tem calor, o alfinete não a está a picar. A mãe pega-lhe ao colo, diz algumas palavras carinhosas e imediatamente Lama se tranquiliza. Volta a deitá-Ia no berço e ela começa a chorar.
- Não tem fome, não tem sede, não tem nada – dizem as más-línguas -, que raio quererá agora?
Quer a mãe. Quere-a a si. Não a quer pela comida, nem pela roupa, nem pelo calor, nem pelos brinquedos que lhe comprará mais tarde, nem pela escola particular onde a vai inscrever, nem pelo dinheiro que lhe deixará como herança. O amor de uma criança é puro, absoluto, desinteressado.
Freud acreditava que as crianças amavam a mãe porque dela obtinham o alimento. Esta á a chamada teoria do impulso secundário (a mãe é secundária, o que vem em primeiro lugar é o leite). Bowlby, com a sua teoria do apego, defende exactamente o contrário: a necessidade da mãe é independente da necessidade de alimento e provavelmente maior.
Por que razão não desfruta, como mãe, dessa maravilhosa sensação de amor absoluto? Sentir-se-ia melhor se o seu filho só a chamasse quando tivesse fome, sede ou frio, e passasse perfeitamente sem si quando estivesse satisfeito? Ninguém negaria a comida a uma criança que chora com fome; ninguém deixaria de abrigar uma criança que chora com frio. Deixaria chorar uma criança que o faz porque necessita de carinho?

O seu filho é generoso

Há pouco tempo, uma mãe, preocupada, perguntava-me quando deixaria o seu filho, de um ano e meio, de ser tão egoísta; quando aprenderia a partilhar.
Por que razão aprender a partilhar é algo de tão obsessivo para pais e educadores? Para que vai servir às crianças aprenderem a partilhar? Nós, adultos, não partilhamos quase nada.
Um exemplo: Isabel, que ainda não tem dois anos, brinca no parque com o balde, a pá e a bola, sob o olhar atento e carinhoso da mãe. Claro, como não tem mãos que cheguem, nesse momento apenas a pá está na sua posse, o balde e a bola encontram-se a uma certa distância. Aproxima-se uma criança desconhecida, mais ou menos da mesma idade, senta-se ao lado de Isabel e, sem dizer palavra, agarra a bola de Isabel. Há dez minutos
que Isabel não ligava à bola e, no início, continua a bater no chão com a pá. Tranquila? Um observador atento terá reparado que as pancadas são mais fortes e que Isabel vigia a bola pelo canto do olho. O recém-chegado,por seu lado, parece plenamente consciente de que pisa terreno perigoso; afasta a bola, observa o efeito, volta a aproximá-la… Para que não haja lugar a mal-entendidos, Isabel adverte: «É minha!» E vê-se obrigada a
especificar: «A bola é minha!» O intruso, que aparentemente não domina frases de três palavras (ousimplesmente prefere não se comprometer), limita-se a repetir: «Bola, boooola, bola!» Sem dúvida com receio de que estas palavras correspondam a uma reivindicação de propriedade, Isabel decide recuperar a posse plena da sua bola verde. O intruso não oferece demasiada resistência, mas, num descuido, consegue agarrar no balde. Isabel brinca durante uns minutos, satisfeita, com a bola recém-recuperada, mas logo se inquieta. E o balde? Mas onde iremos parar?
Podemos passar assim metade da tarde. Umas vezes Isabel cederá de boa vontade, durante alguns minutos, um dos seus brinquedos. Outras vezes, acabará por o tolerar de má vontade. Outras ainda, não o vai tolerar de todo. Por vezes, ela mesma oferecerá ao menino a sua própria pá em troca do próprio balde. Pode haver algum choro e gritos de ambas as partes; mas, em todo o caso, é provável que o seu novo «amigo» consiga bastantes momentos de brincadeira relativamente pacífica.
É muito possível também que ambas as mães intervenham. E aqui produz-se algo que nunca deixa de me surpreender: em vez de defender como uma leoa a sua cria, cada uma das mães se põe do lado da outra criança. «Vá lá, Isabel, empresta a pá a esse menino.» «Vamos, Pedrinho, devolve a pá à menina.» No melhor dos casos, as coisas ficarão por estas suaves exortações; mas, não poucas vezes, as mães competem em
generosidade (porque é fácil ser generoso com a pá dos outros!): «Vá lá, Isabel, se te portas assim, a mamã vai aborrecer-se!» «Pedrinho, pede desculpa agora mesmo ou vamos embora!» «Deixe-o, minha senhora, deixe-o brincar com a pá! Ela é uma egoísta…» «E o meu é terrível, tenho de estar sempre atrás dele, porque está sempre a aborrecer os outros meninos e a tirar-lhes coisas…» E, assim, acabam os dois de castigo, como pequenos países em conflito que poderiam facilmente ter chegado a um acordo amistoso, se as superpotências não tivessem intervindo.Cenas como estas, repetidas mil vezes, fazem com que por vezes consideremos os nossos filhos egoístas.
Nós sem dúvida que partilharíamos uma pá de plástico e uma bola de borracha. Mas será mesmo porque somos mais generosos do que eles ou são os brinquedos que não nos interessam?
É necessário colocar as coisas em perspectiva. Imagine que é você quem está sentada num banco do parque a ouvir música. Ao seu lado, sobre o banco, está a mala sobre um jornal dobrado. Nisto aproxima-se um desconhecido, senta-se ao seu lado e, sem dizer palavra, começa a ler o seu jornal. Pouco depois deixa o jornal (aberto e atirado para o chão!), agarra na mala, abre-a, olha para o seu interior… Será que a leitora saberia partilhar? Quanto tempo esperaria para dizer duas verdades ao desconhecido ou para agarrar na mala e sair a correr? Se visse passar um polícia ao longe, não o chamaria? Imagine agora que o polícia se aproxima e lhe diz:
- Vá lá, dê a sua mala a este cavalheiro ou aborreço-me. O senhor desculpe, mas esta senhora não sabe partilhar… Gosta do telemóvel? Telefone, telefone para onde quiser… A senhora cale-se, se continua a protestar, vai ver…
A nossa disposição para partilhar depende de três factores: o que emprestamos, a quem e durante quanto tempo. A um colega de trabalho poderemos emprestar um livro durante semanas, mas aborrece-nos que um desconhecido mexa no nosso jornal sem pedir licença. Só a um grande amigo ou a um familiar emprestaríamos o automóvel para ir passear. Uma criança pequena tem poucas coisas suas, e um balde, uma pá ou uma bola
são tão importantes para ela como para nós a mala, um computador ou uma moto. O tempo parece longo eemprestar um brinquedo durante uns minutos é tão difícil para ela como para o pai emprestar o automóvel durante alguns dias. E também é diferente quando se trata de amigos ou de desconhecidos, mesmo que não estejamos conscientes disso. Por exemplo, qual destas duas frases usaria a mãe de Isabel para resumir as
histórias que contámos?
a) Enquanto a Isabel estava a brincar na areia com um amigo, um desconhecido agarrou no meu jornal e quase me roubou a mala. Que susto!
b) Enquanto eu e um amigo brincávamos com a minha mala, um desconhecido tentou tirar a bola da Isabel.Que susto!
Claro que, do ponto de vista de um adulto, qualquer criança de dois anos, indefesa e inocente, é um «amiguinho». Mas quando se mede menos de um metro, um menino de dois anos é um desconhecido e pode mesmo ser «um indivíduo com intenções suspeitas».
Um exemplo final: Henrique, de vinte e cinco anos, não sabendo como acalmar o choro do seu filho de oito meses, usa as chaves do carro como se fossem um sino. O menino agarra nas chaves, sacode-as, olha-as, volta a sacudi-las. Uma menina de cerca de seis anos aproxima-se e brinca com ele: «Que lindo! Como se chama? Quantos meses tem?» (É uma dessas meninas precoces.) «O meu primo António também tem oito meses. Hoje
não veio porque tem uma otite.» «Olá, bebé! Que chaves tão giras! Dás-mas? Toma, dou-te esta bola em troca.» Henrique está encantado com a nova amiga do filho, até que a menina sai a correr com as chaves, deixando a bola como pagamento justo. Quantos décimos de segundo pensa que Henrique esperaria para correr atrás dela e recuperar as chaves? O menino partilhou, mas o pai não está disposto a fazê-lo.
Em comparação, os nossos filhos são muito mais generosos do que nós.

O seu filho é equânime

Quer dizer, tem tendência para manter um estado de ânimo estável. Em palavras mais simples, o seu filho não é nada chorão.
Como não, se passa o dia a chorar? As crianças pequenas, é verdade, choram mais frequentemente do que os adultos e por isso costumamos dizer que as crianças são choronas.

E se a verdade for simplesmente porque têm mais motivos para chorar? «Mas choram sem razão», dirá você. «Choram por qualquer disparate.» Choram, conforme a idade, porque caiu uma torre de peças de construção, porque não lhes compramos um gelado, porque os levamos ao médico, porque nos vamos embora durante cinco minutos, porque não encontram a mamã logo à primeira tentativa, porque lhes mudamos a fralda, porque lhes secamos o cabelo… Nenhum adulto choraria por causa dessas coisas, desde já.
E por que razão chora o leitor? Faça uma experiência: sente no colo o seu filho de um ou dois anos e falelhe das coisas mais tristes de que se lembrar: «Vão fazer-te uma inspecção das finanças», «Despediram-te do emprego», «Estão a aparecer-te uns pés de galinha horríveis», «A tua equipa de futebol vai baixar para a segunda divisão…» Ele não vai chorar. As coisas que fazem chorar os adultos e as crianças são completamente
diferentes.

Entre as coisas que fazem uma criança pequena chorar com maior frequência encontram-se:
- Separar-se durante uns minutos da mãe.
- Tentar fazer alguma coisa que não consegue.
- Notar algo de estranho e não saber o que é.
- Necessitar de alguma coisa e não saber como a conseguir.

Todas elas são coisas, para sua desgraça, que podem acontecer (e acontecem) várias vezes ao dia. Pelo contrário, as coisas que fazem chorar os mais velhos acontecem apenas de vez em quando. Por isso parece que somos menos chorões, mas não é verdade. Se a nossa equipa descesse à segunda divisão várias vezes ao dia, se nos despedissem do trabalho todas as manhãs, se todos os dias morressem vários dos nossos melhores amigos, passaríamos também o dia a chorar.

O seu filho sabe perdoar

Emília e o filho, Óscar, de seis anos, tiveram uma grande discussão. Para não nos perdermos com os pormenores, digamos apenas que a mãe de Óscar queria que ele tomasse uma ducha e ele achava que estava perfeitamente limpo. Houve gritos, choros, insultos e ameaças. Uma testemunha imparcial iria reconhecer que a maior parte do choro veio de uma das partes do conflito e a maior parte dos insultos e das ameaças da outra.

Isso aconteceu há uma hora. Qual destas duas pessoas pensa você que está agora feliz e contente, e continua com as suas ocupações como se nada se tivesse passado, mostrando-se mesmo mais alegre e bajulador do que habitualmente; e qual delas émais provável que esteja ainda aborrecida, fazendo censuras e resmungando?

«Olha mamã, olha o que estou a fazer.»
«Não, a mamã não acha graça.»
«Vamos ao jardim zoológico no domingo?»
«E tu achas que mereces? Achas que te portaste bem?»
Artur, o pai, regressa agora do trabalho. Qual das frases seguintes pensa que vai ouvir:

a) «A mamã foi terrível esta tarde, não imaginas a cena que
me fez. Tens de falar com ela.»
b) «O menino esteve toda a tarde muito impertinente, não
me obedeceu. Tens de falar com ele.»

Os nossos filhos perdoam-nos todos os dias dezenas de vezes. Perdoam sem fingimentos, sem censuras, até esquecer por completo o problema. Deixam de estar aborrecidos muito mais rapidamente do que nós.

O seu filho é valente Imagine que está à espera da sua vez no banco, quando entram uns indivíduos armados e com o rosto tapado. Dizem-lhe para se deitar no chão. Não o faz? Se lhe dizem que se cale, não se cala? Se lhe dizem para ficar quieta, não fica como uma pedra? Acha que uma criança de dois anos teria obedecido? Impossível.

Nenhuma força, nenhuma ameaça, nem sequer uma pistola a apontar para ela pode fazer com que uma criança de dois anos fique quieta durante meia hora, deixe de pedir para fazer chichi ou deixe de chorar quando está a fazer uma birra. Admire o seu valor, em vez de se fixar na sua «teimosia».
(…)

Retirado do blog Maternidade Consciente

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